Início
PECAS HISTORICAS DA CIENCIA AGRONOMICA DO ESTADO DE PERNAMBUCO PDF Imprimir E-mail

A Academia Pernambucana de Ciência Agronômica dá continuidade a série de homenagens a antigos Agrônomos-Cientistas do Estado de Pernambuco resgatando artigos históricos publicados nas primeiras décadas do Século XX.  Dessa feita é publicado o artigo de DOM BENTO PICKEL, O.S.B., Monge Beneditino do Mosteiro de São Bento, Olinda, Pernambuco.  Foi Professor de Botânica, Fitopatologia e Entomologia na Escola Superior de Agricultura São Bento, em Tapera, Pernambuco. Coletou plantas nos Estados do Polígono das Secas, coleção que forma o “Herbáreo Pickel” contendo cerca de 5.960 números, arquivado no Instituto de Pesquisas Agronômicas de Pernambuco. Foi agraciado com o título de Professor Benemérito da UFRPE. É Patrono da Cadeira nº 08 desta Academia Pernambucana de Ciência Agronômica. Este Artigo foi publicado no Boletim da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de Pernambuco, v.12, n.1/4, jan./dez., 1945. p. 342-344  há exatos 65 anos.

 

ECONOMIZE AS MADEIRAS E INTENSIFIQUE O REFLORESTAMENTO[1] 

Dom Bento José Pickel O.S.B.

Academia Pernambucana de Ciência Agronômica, Recife, Pernambuco.

_______________ 

   A estatística prova que São Paulo consumia anualmente, (antes da guerra), 25 milhões de metros cúbicos de madeira exigindo o sacrifício de 75 milhões de árvores das nossas matas. Nesta marcha, que continuou em acelerada ascensão durante o período da guerra, e ainda continua, em breve as reservas florestais irão acabar-se, por que se planta anualmente apenas 10% do que se deveria plantar para contrabalançar o “déficit”.
Ora, este fato, obriga-nos a intensificar o reflorestamento visto que, não é possível diminuir os gastos de lenhas e madeira, se não quisermos ficar estacionários no progresso e, sem o consumo desta matéria prima, não pode haver progresso.
   Entretanto, o reflorestamento ficará sempre aquém das necessidades, porque o consumo de madeira é cada vez maior. Diante deste orçamento deficitário e, sem falar na intensificação do reflorestamento, ao menos uma medida se impõe a de economizar a madeira e protegê-la contra a Deterioração.
Nota-se infelizmente, um esbanjamento inexplicável dessa matéria prima devido á falta absoluta de conservação e preservação.
   Em vez de abrigar a madeira sob telheiros ou armazéns, deixam-se os troncos e até as pilhas de pranchões e tábuas ao relento, expostos aos meteoros que estragam o material.
Por isso, em outros países, cogita-se na conservação, na preservação e no sazonamento da madeira, defendendo-a contra o deterioramento.
   A Marinha Brasileira por sua vez, compenetrada desta necessidade já no século passado, procurou meios para remediar o estrago das madeiras empregadas nos portos e navios e enviou para a América do Norte, o Cap. Tte. E. Saldanha da Gama, afim de estudar a questão nos arsenais de marinha daquele país. Esse ilustre marujo depositou as suas observações num opúsculo, publicado no Rio de Janeiro, em 877, que tem o título: “Estudo sobre a conservação das madeiras feito nos Estados Unidos”. Nesse tratado de 20 páginas narra o modo pelo qual as toras são tratadas para sazonar e resistir ao ataque das brocas, do cupim e do teredo.
   Relata que as toras, logo depois de derrubadas as árvores, são submergidas em tanques (nos estuários dos rios, onde permanecem durante 1 a 2 anos). Esse processo tem por fim, dissolver e expelir a albumina (mucilagem) e os ácidos contidos nos tecidos. Depois deste sazoamento, as toras são serradas e guardadas em vastos armazéns, de tal maneira que o ar tenha acesso de todos os lados. As toras ficam no andar térreo e a madeira serrada é disposta em pilhas bem arejadas, sobre o vigamento do armazém.
   Em seguida, o autor trata da preservação da madeira mediante antissépticos. O método mais usado, por ter dado bons resultados, é a creosotagem segundo o processo de “Seely” que consiste em colocar a madeira num banho quente (140.0) e, incontinente, num banho frio de creosoto, durante o tempo suficiente à impregnação.
Diz ele que a madeira assim impregnada, dura de 20 a 30 anos, mesmo se for exposta às intempéries, visto que o creosoto “a garantirá contra todas as causas deletérias, contra as variações da temperatura e contra os vermes marinhos e terrestres e, mesmo, contra o efeito da ferrugem, proveniente do contato das cavilhas, pregos e outros objetos de ferro em geral”.
   Parafraseando estas observações do ilustre marujo, convém lembrar que as árvores, devem ser derrubadas no inverno, quando o crescimento é estacionário e, portanto, quando elas não elaboram amido e albumina que atrairiam os carunchos e as brocas.
   Os machadeiros dizem que se deve cortar as árvores só nos meses que não têm “r” e na lua minguante, para não “bicharem”. Esse conceito, se baseia realmente em fatos, auscultados da natureza.
   Outra prática dos machadeiros é a submersão dos troncos sacrificados, na água, afim de evitar que rachem.
   Esse processo também mata as brocas e dissolve a albumina.
   Saldanha da Gama observa ainda, que os troncos com cerne não se deixam impregnar, pelo antisséptico, porque o cerne tem os poros fechados. Ele pensa não ser necessário tratar com creosoto as nossas madeiras de lei e só as madeiras brancas ou o alburno, que, em geral, é rejeitado, devem ser curados com creosoto. Sendo o tronco muito grosso a injeção com o antisséptico deve ser feita à pressão.
   As nossas estradas de ferro deviam sazonar os dormentes e creosotar os postes e demais material lenhoso, porque assim muito economisariam e poderiam usar também madeiras brancas. As estatísticas européias mostram que os dormentes de madeira branca, tratados com creosoto, duram muito mais tempo.As estradas de ferro, tanto da França como da Alemanha, que fizeram experiências a respeito, verificaram que os dormentes da faia (que é uma madeira branca), tratados com creosoto, duram, em média, 17 anos, enquanto sem tratamento apodrecem em 2 a 3 anos. Tiveram a mesma duração do “carvalho” (cujo cerne dura 14 a 16 anos), porquanto só após o 13. O ano de uso tiveram que ser substituídos 6,6% dos dormentes. O mesmo acontece com as madeiras expostas, por exemplo, nas construções e nas indústrias.
   Seria, pois, uma contribuição para a economia florestal e um ato patriótico economizar as madeiras e resolver a escassez desta matéria prima, prolongando-lhe a duração. 


[1] Artigo publicado no Boletim da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de Pernambuco, v.12, n.1/4, jan./dez., 1945. p. 342-344O autor nasceu na Cidade de Margentheim, na Alemanha, em 28 de julho de 1890 e faleceu na Cidade de São Paulo, Brasil, em 13 de abril de 1963. Cursou Teologia e Filosofia em Olinda, Pernambuco, concluindo-os em Roma, em 1913. Concluiu o Curso de Agronomia na turma de 1914, pela Escola Superior de Agricultura São Bento. Em 1919 foi ordenado Sacerdote. De 1914 a 1936, foi Professor de Botânica, Fitopatologia e Entomologia na Escola Superior de Agricultura São Bento, em Tapera, Pernambuco. Coletou plantas nos Estados do Polígono das Secas, coleção que forma o “Herbáreo Pickel” contendo cerca de 5.960 números, arquivado no Instituto de Pesquisas Agronômicas de Pernambuco. Foi agraciado com o título de Professor Benemérito da UFRPE. É Patrono da Cadeira nº 08 da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica.
 
< Anterior   Próximo >
APOIO CULTURAL Apoio Cultural
PARCEIROS Parceiros

Usuários On-line

© 2017 APCA | Academia Pernambucana de Ciencia Agronomica

Webmaster: