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PECAS HISTORICAS DA CIENCIA AGRONOMICA DO ESTADO DE PERNAMBUCO PDF Imprimir E-mail

A Academia Pernambucana de Ciência Agronômica dá continuidade a série de homenagens a antigos Agrônomos-Cientistas do Estado de Pernambuco resgatando artigos históricos publicados nas primeiras décadas do Século XX. Dessa feita é publicada a Palestra de Dr. EUDES DE SOUZA LEÃO PINTO, Engenheiro Agrônomo, Professor Aposentado de Genética Vegetal da Escola Superior de Agricultura de Pernambuco (ESAP), atual Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). O Dr. Eudes de Souza Leão Pinto, idealizou, criou e durante os últimos 26 anos é o Presidente da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica. Ao longo dos seus 70 anos de atividades profissionais a sua competência, capacidade de liderança e de consenso vem sendo amplamente reconhecidos na Agronomia pernambucana e nacional. A UFRPE concedeu-lhe os títulos de Professor Emérito em 1984 e Doutor Honoris Causa em 2007. É Acadêmico Titular da Cadeira nº. 10 desta Academia Pernambucana de Ciência Agronômica. A Palestra a seguir foi proferida em homenagem aos 400 anos dos Monges Beneditinos em Pernambuco agregada acomemoração do 3º aniversário da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica em 1987. Publicada na obra NAS BRUMAS DO TEMPO, PALAVRAS DO ENGENHEIRO AGRÔNOMO EUDES DE SOUZA LEÃO PINTO: COLETÂNEA DE DISCURSOS – TOMO I. Recife: APCA/UFRPE, 2010. 536 p.

OS BENEDITINOS NO DESENVOLVIMENTO DA AGRICULTURA NORDESTINA1

Honra insigne foi-me concedida pela comunidade beneditina de Pernambuco ao convidar-me para pronunciar esta palestra, como parte dos eventos comemorativos dos quatrocentos anos da chegada a Olinda dos valorosos e dignos Monges de São Bento, tendo a presidir-nos o eminente e bravo Prior D. Basílio Penido.

Nesta noite de evocações e de emoções, concentro todo o meu pensamento nos fatos passados na inesquecível Escola Superior de Agricultura de Pernambuco, antes denominada Escola Superior de Agricultura São Bento, fundada em 1912 pelos Beneditinos vindos do Mosteiro de Hales, na Alemanha, e, em 1916 instalada no Engenho São Bento, no Distrito de Tapera, Município de Vitória de Santo Antão. Era então Prior da Ordem D. Bonifácio Jansen. Naquela época áurea da Escola Superior de Agricultura, a Comunidade dos Monges Beneditinos era formada por D. Pedro

Bandeira de Mello Souza Leão Faro, Diretor, D. Bento Pickel, D. Gabriel Beltrão, D.Hildebrando Schäffers, D. Bernardo Otts, D. Agostinho Ikas e os irmãos Leigos Fidelis e Max.

1 - Discurso-Palestra proferido pelo Engenheiro Agrônomo Eudes de Souza Leão Pinto, Presidente da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica, durante as Comemorações dos 400 anos da presença da Ordem Beneditina em Pernambuco, como parte das Festividades dos 75 anos da Criação dos Cursos de Ciências Agrárias em Pernambuco, célula mater da Universidade Federal Rural de Pernambuco, em 03 de novembro de 1912. Realizada no Mosteiro de São Bento, Olinda, Pernambuco, em 30 de outubro de 1987, agregou também a celebração do 3º aniversário da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica, com a presença de diversas autoridades, convidados e comunidade universitária. Documento original, acervo pessoal do autor.

Sinto-me ocupando os meus aposentos no prédio velho do conjunto arquitetônico daquele centro de estudos agronômicos, inspirando-me e estimulandome na oração e no trabalho, para enfrentar as lides do estudo com ânimo redobrado, buscando conquistar os meus objetivos de preparação profissional.

Ao chegar, como calouro inexperiente, aos umbrais da prestigiosa Escola, exatamente no ano de 1937, em que o Governo do Estado de Pernambuco a adquiriu da Ordem Beneditina, estremeci de espanto e de decepção. Alimentara a doce esperança de encontrar uma recepção festiva aos jovens que, como eu, haviam logrado aprovação no mais pesado e difícil exame vestibular de toda a sua história. Minha imaginação estivera povoada de vultos humanos formados na disciplina da

Regra de São Bento, providos de amor fraterno e de uma visão acerca de seus semelhantes compatível com a condição de irmãos em Cristo.

No trajeto da cidade do Recife ao Engenho São Bento, passando por Jaboatão, Moreno e Tapera, enquanto o ônibus avançava em direção ao seu destino, abstraíame das conversas e brincadeiras dos colegas, dominado pela agradável sensação de me haver tornado estudante de nível superior, contemplado pelas graças e misericórdia de Deus.

A tarde ia ficando na estrada e a noite descendo lentamente a sua escuridão, em meio a uma chuva fina e fria. Em meu íntimo crescia a saudade de meus pais, de meus irmãos, parentes e amigos. A hora da Ave Maria chegara tocante e alentadora ao transpor o limite da propriedade para a qual estava viajando.

Em oração contrita e profunda, pedia à Virgem Santíssima que me fizesse viver intensamente os dias, meses e anos que ali haveria de passar, provido do mais sincero propósito de valorizar os dotes da espiritualidade, sem deixar seduzir-me pela materialidade carnal e das coisas. Ao término da minha prece já avistava a silhueta da Escola Superior de Agricultura de Pernambuco. Com o coração batendo aceleradamente, divisei o acesso ao prédio central e logo percebi que estav programada uma manifestação inusitada de violência, com o desencadeamento do trote dado nos primeiros calouros que saltaram do ônibus.

As malas jogadas na lama e a passagem através do corredor formado pelos veteranos para aplicação de socos, tapas e pontapés, constituíram a primeira parte do show de perversidades cometidas contra os indefesos calouros. Qualquer reação significava a maior satisfação para os veteranos, que passavam a usar o valente como bode expiatório nas cenas seguintes.

Em meio ao atordoamento causado pela agressão, apelava para Deus e São Bento, tratando de mobilizar a mente e o corpo para a grande batalha da conciliação de minha dignidade pessoal com aquela desvairada explosão de recalques, que era uma decorrência da quebra da ordem antes imposta pelos Beneditinos como condição de permanência no Curso de Agronomia, a chocar-se com o sistema de auto-disciplina instituído pelo Governo do Estado de Pernambuco e que liberava os instintos perversos e os procedimentos desrespeitosos para com os jovens ingressos na comunidade. Indiscutivelmente era o regojizo dos espíritos malignos em virtude da substituição de uma direção religiosa pela administração leiga. Na chamada “Noite dos Demônios”, com a sucessão de trotes contundentes e humilhantes, fui poupado dos sofrimentos passados pela maioria de meus colegas calouros, graças à generosa acolhida proporcionada pelos diletos colegas, naquela época, já veteranos, Petronilo Santa Cruz Oliveira e Rodolfo Araújo.

Em encontro espiritual com as origens de São Bento, a quem recorrera fervorosamente, à janela de meu quarto, olhando para o infinito na ânsia de desvendar o meu futuro. Parecia-me ver o jovem Bento Anícia deixando a pequenina cidade de Núrsia, perto de Spoleto, Úmbria, na Itália, onde nascera no ano de 480 DC, dirigindose à Roma a fim de completar seus estudos. A sociedade conturbada e decadente que encontrou na capital do Império Romano levou-no a desistir dos estudos e seguir para a minúscula cidade de Enfide, saindo daí para Subiaco, a 70 quilômetros de Roma, amisteriosa terra das águas frescas e límpidas, expandidas em um grande lago, do qual corria um rio que transbordava esperança.

Bento recolheu-se a uma gruta num local próximo às ruínas do palácio de Nero. Seu único contato era o seu amigo Romano, monge de um mosteiro vizinho, que o provia de alimentos e de roupas. Ali morou durante três anos em proveitosa e inspiradora solidão, de vida rigorosamente ascética, de meditações e penitências.

Lembrei-me da passagem de Bento pelo Mosteiro de Vicovaro, ascendendo à posição de Prior, para depois sofrer o dissabor da traição, armada pelos mesmos monges que o elegeram, não conformados com a rigorosa disciplina que lhes impusera. Protegido por Deus, Bento livrou-se do envenenamento preparado em sua bebida e em sua comida. Juntamente com um grupo de jovens, entre os quais destacavam-se como seus melhores amigos Plácido e Mauro, emigrou para Nápoles, passando a morar ao sopé do Monte Cassino, até quando conseguiu erigir o mosteiro no cimo da formação orográfica que se tornou famosa em todo o mundo, não só pela configuração arquitetônica de uma verdadeira fortaleza, fechada dos quatro lados, como pela geração do bem maior, na riqueza espiritual que viria a espalhar pelo mundo, reerguendo a fé, a esperança e a caridade nas almas dos que se sucederam à ruína da civilização romana. Após a tentativa de envenenamento, saiu para fundar doze mosteiros com doze monges cada um.

“Sem nada antepor ao amor de Cristo”, Bento deu à humanidade lições de um conformismo salvífico e santificante, que me enchia a alma de conforto espiritual naqueles momentos de preocupações sobre o dia seguinte ao da entrada na vetusta Escola Superior de Agricultura de Pernambuco.

Amanheci ouvindo o repicar dos sinos da igreja beneditina, que se mantivera como área preservada da desapropriação pelo Estado, para apoio espiritual aos funcionários, professores e alunos do referido estabelecimento de ensino superior de agricultura. Nos sons do repique que o irmão Leigo Fidélis sabia tirar do bronze, com especial zelo apostólico, recebi o influxo de redobrada coragem para enfrentar os óbices de uma convivência espinhosa com os veteranos obcecados pela ideia dostrotes.

De alam aberta e corpo fechado, desci para o restaurante onde teria que me defrontar com tantos trotistas ávidos por descobrir o calouro protegido que se livrara dos padecimentos da véspera de desafios à paciência e à tolerância.

Um anseio de paz acalmava meu coração e continha meus arroubos de bravura. Como se estivesse com a história de São Bento diante dos olhos, recordava as recomendações que fazia à sua comunidade monástica: “Haja consideração pelas fraquezas dos irmãos: quem necessitar de menos dê graças a Deus e não se entristeça; quem precisar de mais humilhe-se por sua fraqueza e não se orgulhe pela misericórdia de que é alvo. Assim todos viverão em paz.” Lembrava-me também queSão Bento dera severas lições aos bárbaros Tala e Tótila, reis dos godos, submetendo-os à sua autoridade austera e bendita nas ocasiões mais difíceis de contê-los em suas desafiantes arrogâncias. Por isso pedia-lhe que me cobrisse com o seu manto protetor, em nome do Senhor nosso Deus.

Ao chegar ao local que me fora reservado no restaurante e persignar-me com o Sinal da Cruz, recebi as primeiras provas de agressão representadas pelo arremesso de grossas e pesadas manteigueiras de vidro contra a minha cabeça. Livrando-me de cada uma a seu tempo e de todas em todo tempo de duração dos trotes, eu recitava uma parte da Regra de São Bento: “Participamos da Paixão de Cristo pela paciência, a fim de merecermos ser co-herdeiros do seu Reino”. Era essa paciência que evitava o revide à agressão feita à distância, sem comprometimento de minha dignidade e integridade física, que me haveria de dar condição de fazer de cada agressor meu colega, amigo e respeitoso tão logo cessou o período das provações trotistas.

Entre as orações, o estudo e o trabalho, eu me encontrava com São Bento, nas visões de seu escudo monástico representado pela cruz, o livro e o arado, e de suas sábias Regras, que se somavam aos preciosos ensinamentos de São João Bosco, fundador do renomado Colégio Salesiano, onde fiz meus estudos de segundo grau.

“Ora et labora” era o refrão de minha auto-sustentação no transe de calouro, sujeito a tantos riscos de choques violentos, na medida em que me via obrigado a ser solidário com os colegas católicos praticantes vítimas da fúria agnóstica dos que se sentiam libertos do injustamente chamado jugo beneditino.

Na medida em que orei e mais trabalhei, passou-se rapidamente o tempo das grosserias, deixando-me feliz na contemplação de um passado de milagres, de um presente de bênçãos e de um futuro de graças.

Ao analisar o papel dos beneditinos no desenvolvimento da agricultura nordestina, cabe-nos destacar primordialmente a magnífica contribuição dada ao universo a partir do continente europeu. Por serem monges habitantes de mosteiros construídos no meio rural, estiveram sempre familiarizados com as atividades agropastoris. O gosto pela ciência e pelos processos tecnológicos aplicados no cultivo de plantas e criação de animais, bem como nas transformações dos produtos da terra em matérias primas alimentadoras da espécie humana, dos animais domésticos e das máquinas industrializadoras fez dos monges beneditinos verdadeiros doutores em botânica, zoologia, física, química, biologia, genética, climatologia, matemática, estatística, mecânica e construções rurais aplicadas à agronomia.

Da Itália, os beneditinos estenderam sua benéficas ações à Inglaterra, à França, à Bélgica, à Holanda, à Alemanha, à Áustria, à Grécia, à Turquia, aos países escandinavos, bálticos e à Europa Central, abrindo ao continente europeu um novo roteiro do Absoluto de Deus, para o revigoramento da humanidade em sua fé, em sua esperança e em seu espírito de solidariedade cristã.

Os mosteiros beneditinos foram sinais de vida espiritual plena de amor fraterno, de ensinamentos sobre a oração e o trabalho que marcaram uma época de plenitude religiosa em suas circunvizinhanças. Foi tal a influência e a importância dos mesmos na civilização cristão européia, que o Papa Paulo VI, em 1964, declarava São Bento o padroeiro principal da Europa, em reconhecimento por ter feito renascer a cultura romana cristã após o período negro que atravessara, do ano de 476 até depois do ano 500, durante o domínio dos bárbaros hérulos.

Quem conhece a vida de São Bento, com todas as suas maiores da civilização européia, há que se convencer de sua predestinação como especial enviado de Deus para converter a humanidade e fazê-la reverter dos descaminhos do ateísmo e da maldade para as trilhas do espiritualismo e da bondade, com a prevalência das virtudes teologais da fé, esperança e caridade.

Ao perceber, em seus verdes anos, a desmoralização dos costumes, a inversão dos conceitos de ética e de respeito à dignidade humana e o desmoronamento da estrutura sócio-econômica que tanto engrandeceram Roma toda poderosa do passado, não hesitou em desvencilhar-se de seus compromissos familiares, para livrar-se da lama e do lodo que emporcalhavam a sociedade romana,buscando o esconderijo de Subiaco (sublacus), em ambiente de natureza pura em suas terras e águas, com vegetação exuberante e fauna tranqüila.

Concentrou-se em orações, tendo adquirido o poder de operar milagres por força das mesmas e até de sua própria força sobrenatural, conforme relatou com toda autoridade eclesiástica D. Gregório Magno. Portanto, a Ordem Beneditina, criada sob o influxo sacrossanto de São Bento, teria que ser uma congregação de monges dotados de toda a influência benfazeja sobre as comunidades beneficiadas por suaassistência espiritual e por seus ensinamentos acerca dos sistemas existenciais expressos pelas mais diferentes atividades materiais, sobretudo as desenvolvidas nomeio rural.

Daí porque os seus mosteiros serviram como cidadelas de fé no solidarismo fraterno e de centros escolares, de ajuda aos necessitados, de hospedagem para os viajantes, de treinamento em agricultura, artesanato, industrialização e comercialização dos produtos e subprodutos oriundos da terra, dos rios, lagos e mares; de prestação dos serviços mais variados, de saúde, comunicação, transporte e armazenagem ou ensilagem das mercadorias produzidas em suas propriedades eadjacências.

Sabe-se que 3/8 das cidades francesas tiveram sua origem em instituições monásticas, com a ampla predominância das beneditinas, guiadas por São Bento e por Santa Escolástica para o atendimento das vocações masculinas e femininas, respectivamente.

Em outros países europeus, sobretudo os que formavam os territórios romano e da Germânia, houve a mesma característica formativa das bases comunitárias espiritualistas que se transformavam em bases populacionais geradoras dos lugarejos, das vilas, dos distritos e das cidades, providas de austeridade e bons costumes, próprios dos que são tementes a Deus. O sentido da ordem normativa, imposto pela excelência da Regra de São Bento, estabeleceu a disciplina e a racionalidade que haveriam de contribuir positiva e poderosamente para uma integração das atividades pastoris, agriculturais e de prestação de serviços em geral, de modo a ser assegurada uma conveniente e útil divisão de trabalho e de renda, propiciada do bem estar econômico e social para os habitantes daquelas localidades.

Essa condição fundamental de vida simples, modesta, equilibrada, de união fraterna e para a qual não faltavam os alimentos e os remédios indispensáveis à manutenção da boa saúde e do elan para o trabalho, representou um fato sumamente auspicioso para a recuperação do bom ânimo que haveria de conduzir os jovens civilizados a uma recomposição de seu caráter e de suas tendências espiritualistas.

O Brasil foi uma das nações beneficiadas pela presença da Ordem de São Bento, com o estabelecimento de mosteiros em Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco, mais precisamente em Olinda.

De Olinda irradiou-se para Pernambuco inteiro a luz da cultura, da virtude e da cooperação, emanda do Mosteiro de São Bento. A primeira faculdade de Direito, bem como a primeira Escola Superior de Agronomia, instaladas no Brasil foram fanais da fé e de esperança concretas, respectivamente na disseminação da justiça e dos ensinamentos essenciais para a dinamização da riqueza da terra, da forma mais racional e econômica possível.

Por força da liderança exercida por Pernambuco em toda a região nordeste brasileira, os beneditinos passaram a ter um papel destacadíssimo no desenvolvimento da agricultura regional. Os ilustres e dedicados monges mestres da Agronomia não se limitaram a transmitir apenas os conhecimentos científicos e tecnológicos que possuíam. Movidos pelo espírito criativo, investigaram com o maior senso perscrustativo o ecossistema em que se inseriam, buscando identificar os segredos da natureza para servi-la com amor e devotamento, na preservação de sua flora e fauna, recomendando o aproveitamento de plantas e animais que já tivessem cumprido as suas funções vitais no armazenamento das reservas de proteína, hidrato de carbono, substâncias minerais e vitaminas capazes de proporcionarem o melhor uso como matérias primas essenciais à alimentação humana e das máquinas operatrizes produtoras de vestuário e bens de consumo em geral, para os mercados interno e externo.

Na Escola Superior de Agricultura São Bento, cujo lema era o mesmo da Ordem Beneditina, “ORA ET LABORA” (reza e trabalha), havia o clima desejável e saudável para a meditação, com o permanente convite ao trabalho mais proveitosos das salas de aulas, da biblioteca, dos laboratórios, das oficinas e do campo, sempre subdividido em ensaios, pesquisas e experiências, assim como demonstrações dos resultados.

O convite à meditação era a maneira eficaz de conter a prejudicial e noviça murmuração, tão comum em ambientes de vida coletiva pelos males que produz gerando as dúvidas, as desconfianças, as idiossincrasias, os antagonismos e até as inimizades em todas as suas gradações, podendo chegar à explosão da violência.

São Bento sempre foi cauteloso e profético ao recomendar a abolição da prática do murmúrio nas comunidades eclesiásticas e leigas, sabendo que as portas têm olhos e as paredes têm ouvidos para disseminarem as más notícias e maus comentários, mesmo veiculados sob segredo de sete chaves.

A aprendizagem da Ciência Agronômica e de todas as técnicas correlatas, adquiriram força de convicção por parte dos agrônomos diplomados pela Escola Superior de Agricultura São Bento. Mesmo depois de passar a denominar-se Escola Superior de Agricultura de Pernambuco, quando adquirida pelo Governo deste Estado, continuou a haver uma profunda a arraigada consciência de responsabilidade emanente da sábia orientação beneditina, não só na seriedade do comportamento dos universitários e engenheiros agrônomos, que ingressaram e se diplomaram na instituição a partir de 1938 e 1940, respectivamente, como também na abertura para a cooperação com outras instituições de diferentes categorias profissionais.

Assim é que foi na sede da Escola Superior de Agricultura de Pernambuco, já em Dois Irmãos, no Recife, que se incorporou definitivamente à comunidade agronômica a valorosa comunidade de médicos veterinários, com a renovação do sistema antigo, adotado pelos monges beneditinos, mediante a criação da Escola Superior de Medicina Veterinária.

Em seguida a Escola Superior de Agricultura de Pernambuco abrigou temporariamente a Escola Superior de Química, quando foi a mesma desligada da Escola de Engenharia de Pernambuco.

A criação da Universidade Federal Rural de Pernambuco ensejou a abertura de uma série de cursos superiores que hoje dão expressivo significado histórico ao empreendimento pioneiro dos bravos monges beneditinos em Pernambuco. Nas unidades de ensino superior de Agronomia, Medicina Veterinária, Economia Doméstica, Zootecnia, Engenharia de Pesca e Engenharia Florestal, além das unidades das ciências básicas existentes na estrutura organizacional da Universidade Federal Rural de Pernambuco deve haver eco das vozes beneditinas amigas e proféticas, a infundirem sentimentos de respeito à dignidade humana e de amor à natureza, através das plantas e dos animais, numa compreensão ampla e tocante da grandeza e do poder de Deus, que tudo fez para benefício da humanidade e tudo deu para salvá-la dos pecados devoradores e aniquiladores das personalidades enfraquecidas pela inveja, soberba, deslealdade, hipocrisia, concupiscência, injustiça, mentira, ódio e violência.

Na interpretação de seu papel no processo desenvolvimentista, nada pode ser mais gratificante para a Ordem Beneditina do que avaliar e comprovar o efeito subjetivo da Regra de São Bento sobre aqueles que receberam os seus ensinamentos, tornando-se mansos e humildes de coração, claros e sinceros de opinião, firmes e abertos de mente para o exame clarividente e racional da problemática comunitária, tendo a capacidade de conhecer cada indivíduo nas manifestações de suas vontades e seus objetivos, assim confirmando a expressão da consensualidade que deve caracterizar a convivência saudável, pacífica, ordeira e construtiva entre todas as pessoas, feitas à imagem e semelhança de Deus.

De forma concreta, os influxos do bem gerados pela Ordem Beneditina na linha direta das recomendações de São Bento podem ser traduzidos na existência de um elenco de profissionais da Agronomia diplomados pela Escola Superior de Agricultura São Bento, em Pernambuco, cujo número ascende a mais de uma centena.

Na relação dos discípulos de São Bento notáveis profissionais da Agronomia, que deram honra a Pernambuco e ao Brasil. A grande maioria, impregnada do sentimento de amor a Deus e ao próximo como a si mesmo. Estão entre os mais dignos Patronos das Cadeiras da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica, a primeira no gênero a ser fundada em território brasileiro. Também no elenco dos atuais vinte e cinco Acadêmicos encontram-se vários Engenheiros Agrônomos diplomados pela Escola Superior de Agricultura São Bento.

A antecipação dos valores beneditinos na conquista dos mais nobres e importantes objetivos em prol do aproveitamento dos recursos naturais e humanos vem desde os tempos de São Bento, na segunda metade do primeiro milênio D.C. até aos nossos dias.

A escola de oração e trabalho que souberam criar com tanto zelo e devotamento à agricultura, teria forçosamente que influir decisivamente no espírito de seus alunos, incitando-os ao melhor desempenho de suas atividades, com desprendimento e superioridade em relação às glórias e às recompensas materiais.

Anteciparam-se, igualmente, nas soberbas realizações que mais beneficiaram o Nordeste, contribuindo para o desenvolvimento de sua agricultura.

Entre eles merecem destaque: Otávio Gomes de Morais Vasconcelos, Renato Portela, Hidelfonso Lopes e tantos outros cujos nomes figuram na memória dos pernambucanos.

Apolônio Jorge de Farias Salles, o cientista e o técnico a um só tempo, que atribuiu à terra e à água as justas, corretas e adequadas funções de provedoras do sustento das plantas e dos animais de toda a escala zoológica, incluindo o homem, foi sem dúvida alguma um expoente da classe agronômica que podemos considerar entre os mais fiéis oblatas.

Graças à sua criatividade e eficiente atuação, as usinas Tiúma e Catende passaram a ser modelos na prática do melhoramento da produtividade canavieira e da irrigação. O Rio São Francisco passou a fornecer energia hidrelétrica ao Nordeste através da captação feita em Paulo Afonso, em suas quatro usinas, ampliando consideravelmente a sua potência energética ativada, mediante a construção das usinas de Sobradinho, Moxotó e Itaparica, devendo ainda contar com as unidades de Xingó, Ibó e Pão de Açúcar para alcançar uma capacidade total de aproximadamente 8.000.000 de kilowatts da energia mais barata e cuja geração é completamente livre de poluição.

O Engenheiro Agrônomo Apolônio Salles, fiel discípulo de São Bento, no exercício de suas atividades profissionais, tanto no campo da atividade privada, côo governamental, digno Secretário de Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de Pernambuco, Ministro da Agricultura da República Federativa do Brasil e Presidente da Companhia Hidrelétrica do São Francisco, deu o toque mágico para a conversão de muitos sonhos em palpável realidade para o bem do Nordeste e do Brasil.

Somente a autoridade de técnico renomado, o conhecimento dos segredos da natureza nordestina do litoral ao sertão, a pertinácia na busca da solução principal para os problemas do subdesenvolvimento sócio-econômico, expressa pela geração de energia elétrica para a geração dos benefícios de toda ordem, que advêm da pronta e efetiva disponibilidade da eletricidade, convenceram as autoridades superiores da República, particularmente o Exmo. Sr. Presidente Getúlio Vargas, a concordarem com a execução do Projeto Paulo Afonso, que viria a deflagrar oprocesso de desenvolvimento da região nordestina.

Já que citei um colega redivivo em seus feitos agronômicos do maior alcance sócio-econômico, cumpre-me mencionar eminentes colegas Engenheiros Agrônomos vivos, que compõem o quadro dos Acadêmicos mais ligados aos beneditinos, tais como o renomado botânico e ecólogo João de Vasconcelos Sobrinho; o mestre da topografia, hidráulica e engenharia rural, João de Deus de Oliveira Dias; o mestre de mecânica agrícola, Ivan Tavares; o mestre da entomologia, Mário Bezerra de Carvalho; o mestre da zootecnia, Renato Ramos de Farias e o grande líder das atividades empresariais agropecuárias-industriais e comerciais, Gileno De Carli, atual Presidente da Federação das Associações Rurais de Pernambuco, da Sociedade Auxiliadora da Agricultura de Pernambuco, Representante dos Agricultores no Conselho Deliberativo da SUDENE e orador oficial da Academia Pernambucana deCiência Agronômica.

Seria ocioso deter-me na exaltação dos grandes nomes de Engenheiros Agrônomos que prestaram, e alguns ainda continuam prestando, os mais relevantes serviços à agricultura nordestina e mesmo nacional. Prefiro dizer em síntese máxima que São Bento esteve e está presente em suas vidas profissionais, inspirando-os a oferecerem as suas inteligências e os seus esforços físicos em favor do bem comum, tomando cada monge beneditino da comunidade existente em Pernambuco comoexemplo magnífico de grandeza d’alma e de aplicação das energias corporais embenefício dos que carecem de ajuda moral e cívica para adquirirem o indispensável grau de profissionalização para o trabalho produtivo e construtivo.

Da soma dos desempenhos agronômicos, cresceu a árvore da contribuição beneditina no Nordeste, reverdecida sempre nas primaveras dos ideais puros e sacrossantos de engrandecimento da pátria e de fortalecimento das estruturas sociais da humanidade imbuída dos mais vivos sentimentos de paz universal.

Succisa Viresci – cortado reverderá, que foram as palavras da divisa de Jô, tomadas por São Bento para cortar sempre o desânimo que reverdece da esperança em dias melhores, anima os Engenheiros Agrônomos a serem sempre confiantes no que pode decorrer da oração e do trabalho.Relembro o princípio filosófico de Ortega e Gasset “a vida não nos é dada feita como o trajeto de uma bala”, para afirmar que ela é irradiante de som e de luz que se ampliam e se aprofundam, abrangentes na visão introspectiva e cosmogônica, respectivamente, de nossos seres e de outros seres inseridos no contexto do mundo multivariado, multidividido, multienigmático e multicontestado.

Por isso, concluo esta modesta homenagem a São Bento e aos digníssimos monges beneditinos afirmando que os 400 anos da bendita Ordem em Pernambuco representou um marco indestrutível de orações e trabalhos postos a serviço da cultura e do desenvolvimento da agricultura nordestina.

No período tão preocupante da vida brasileira, concito os que me honram com a sua presença neste auditório, a elevarmos nossas preces a Deus, contando com a intercessão da Virgem Maria, de São Bento e de todos os Santos, para que tenhamos uma Constituição eminentemente cristã e democrática, pela qual a eleição propicie o que é doutrina comum e parte da Regra de São Bento. Que o Governo tenha as duas qualidades: unidade e participação tanto quanto possível de todos.

O mundo moderno está morrendo por incapacidade de reflexão. São Bento, como propôs ao nômade a estabilidade, propõe ao homem moderno o silêncio como uma reverência ao outro, o reconhecimento de que o outro existe e pode ser um mensageiro de Deus, com algo a nos dizer. O silencio é, em sua maior significação, a atitude da receptividade diante de Deus, segundo a magnífica lição que nos dá D.

Lourenço de Almeida Prado ao comentar a obra de São Bento.

Ao pronunciar estas últimas palavras de minha modesta palestra, procurando transmitir afeto e respeito à dignidade humana, propondo justiça, verdade, amor e caridade para com o próximo, ressaltando os méritos da Pátria idolatrada e do bravo povo brasileiro para usufruição das extraordinárias benesses recebidas de Deus, convido a todos para fazermos um minuto de silêncio, no qual nossas fraquezas possam ser transformadas em força, abrindo-nos a perspectiva de merecermos a suprema graça de ainda convivermos num mundo unificado pela prevalência do sentimento de exaltação à Paz.

Olinda, 30 de outubro de 1987.

EUDES DE SOUZA LEÃO PINTO

Presidente da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica

 
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