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PERNAMBUCO IMORTAL, ECOS DA MEMORIA AGRONOMICA ESTADUAL: DISCURSOS DO PROF. DR. APOLONIO SALLES PDF Imprimir E-mail

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Professor Doutor Apolônio Jorge de Farias Salles Secretário de Agricultura, Indústria e Comércio de Pernambuco (1937 – 1942) Ministro da Agricultura (28 de fevereiro de 1942 a 29 de outubro de 1945 e de 29 de junho a 24 de agosto de 1954)

Exmo. Sr. Dr. Wagner Rossi, Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento da República Federativa do Brasil, É com imensa honra que a Academia Pernambucana de Ciência Agronômica homenageia a passagem dos 150 anos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, com a outorga dos Pronunciamentos do PROF. Dr. APOLÔNIO JORGE DE FARIAS SALLES, ou simplesmente, Dr. APOLÔNIO SALLES, no período de 1935 a 1941.

Pernambucano, concluiu o Curso de Agronomia na Escola Superior de Agricultura de São Bento, localizada no Município de Tapera, Pernambuco, no ano de 1923. Professor Catedrático da Escola Superior de Agricultura de São Bento, lecionou diversas Disciplinas, tais como, Mecânica Agrícola, Engenharia Rural e Agricultura Especial, durante o período de 1924 a 1960, quando se aposentou no cargo de Professor Catedrático da Escola Superior de Agricultura da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

Em 1931, nomeado Engenheiro Agrônomo da Secretaria de Agricultura, Indústria e Comércio de Pernambuco, desempenhou o cargo de Chefe do Serviço Estadual de Cana-de-Açúcar, e em 1934, foi o introdutor das tecnologias modernas para irrigação na Usina Catende. Exerceu o cargo de Secretário de Agricultura do Estado de Pernambuco, no período de 1937 a 1942.

Na passagem do Sesquicentenário deste Ministério, nossa singela homenagem ao Titular da Cadeira 4, que integra o panteão dos Patronos desta Academia Pernambucana de Ciência Agronômica, resgatando a Conferência proferida em São Paulo no ano de 1935, enquanto exercia a função de Diretor do Serviço Estadual da Cana de Açúcar de Pernambuco, seguida por outros Discursos pronunciados enquanto Secretário da Secretaria de Agricultura, Indústria e Comércio de Pernambuco de 1937 a 1942.

“Pernambuco Imortal, Ecos da Memória Agronômica Estadual’, é a primeira parte da pesquisa dos Pronunciamentos do Dr. APOLÔNIO SALLES, compilados pela Bibliotecária Conceição Martins, Mestre em Comunicação e Sócia Benemérita desta Academia, que se dedica ao resgate, preservação e divulgação da MEMÓRIA VIVA da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) da qual o Dr. APOLÔNIO SALLES é um singular representante.

EUDES DE SOUZA LEÃO PINTO
Professor Doutor Honoris Causa da UFRPE
Presidente da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica
Titular da Academia Nacional de Engenharia

 

CONFERÊNCIA
Conferência proferida pelo Engenheiro Agrônomo Apolônio Jorge de Farias Salles, Professor da Escola Superior de Agricultura de São Bento, Pernambuco, atual Diretor do Serviço Estadual da Cana de Açúcar de Pernambuco, realizada no Salão da Associação Brasileira de Imprensa, Rio de Janeiro, no dia 22 de fevereiro de 1935. Publicada no Boletim da Secretaria de Agricultura, Indústria e Viação de Pernambuco, Tomo IV, jan./mar., 1935. p. 37-50.

Meus Senhores,
Dois mêses faz, senhores, que deixei a terra pernambucana.
Dois mêses que, deixando a linha sinuosa dos coqueiros de minha terra, rumei ao sul.

Vim para mais perto do coração do Brasil. Aqui, ao calor mais quente do meio agronomico do Brasil, procurei alentar-me nas minhas aspirações, inflamar-me nos meus sonhos de pernambucano amante de sua gleba.

E, afirmo-vos senhores, ao contacto dos lídimos representantes da classe a que me filio com orgulho, eu sinto bem fortes os arremessos de uma profissão em demanda do progresso, em demanda de sua finalidade, amparada pela certeza que lhe dá a comunhão de vistas e de pensamentos de todos os membros ilustres que a compõem.

Rendo-me hoje em vossa presença ao convite que me fez a Associação Brasileira de Agronomia, para dizer alguma coisa sobre o que o meu Estado longínquo espéra ou já recebe da classe agronomica do país, eu vos afianço que o faço com alegria que se justifica em a noção de solidariedade que sinto na classe ainda não muita numerosa dos profissionais da terra.

Em visitando as instituições tecnicas do sul do país, através das vitorias da administração paulista, como pelos arrancos progressistas da Minas tradicional, como ainda pelos institutos modelos do Ministerio em que avulta pelas suas realizações de ordem pratica e de suma eficiencia, a Estação Experimental de Campos, claro que o meu pensamento, a toda a hora, se volvia para a adustez das terras pernambucanas, de que brota a cana doce ou sobre que paneja o algodão branquecento ao calor do sol e ao destemor e perseverança nordestinos.

Surge então em minha mente o cenario economico de Pernambuco em que as instituições agronomicas serão o marco da futura prosperidade.

Imaginai, senhores o que seja, em o norte do país, um Estado com a configuração geográfica de Pernambuco.

Uma faixa de menos de duzentos quilometros de largura penetrar setecentos kilometros no coração do continente.

Em fração pequena desta faixa, nas zonas litorânea e da mata, adensa-se uma população de três milhões e meio de habitantes a viverem a vida agrícola mais intensa, por ser a unica que oferece, não digo folgança, mas a unica que permite uma existencia honesta e decente para cidadãos livres e laboriosos.

Em Pernambuco não ha riquezas minerais que facultem exploração economica ou que fomentem meios de vida aceitaveis.

Afora as promessas longinquas no tempo e no espaço do linhito de Jatobá, afora jazidas calcareas minusculas perante as quais as que se vêem em Minas são imensuráveis, alem dos granitos abundantes que se oferecem como material de primeira ordem para construção do reino mineral de Pernambuco bem pouco espéra para a sua abastança financeira.

Talvez que ainda se acredite em possiveis descobertas pelo sertão imenso e quente de alguma jazida que acene com riquezas ou que somente ofereça ouropeis. São porém conjecturas em que se não deve firmar um programa imediato de realizações tendentes a aumentar o bem estar de um povo.

O pouco que existe de riquezas no subsolo pernambucano mal justifica uam coluna ou um titulo no anuario estatístico do meu Estado, ridícula soma de setenta e quatro contos para um total de exportação interestadual em que cento e oito mil contos se imputam a produtos de origem vegetal e animal.

E se procuramos as cifras da exportação para o estrangeiro veremos que sob identica rubrica cabem apenas oito contos num volume global total de 26.929:174$650 no mesmo ano.

É portanto da terra que Pernambuco ha de tirar a sua subsistencia.

Da terra, não sózinha, não pelas violações temerosas de suas entranhas na mineração, mas da terra em amplexo carinhoso com as plantas ou na concatenação providencial das plantas com os animais.

É que, senhores, Pernambuco é o Estado essencialmente agrícola dentro do país essencialmente agrícola dos literatos da agronomia.

Mas, nesta afirmativa não vejais a intenção de vos propôs Pernambuco como um Estado em que a agricultura poreja vantagens, em que a agricultura é a fada dos pomos de ouro facilmente colhidos pela sua densa população.

Pernambuco é agrícola porque somente a agricultura o arranca da penuria, o afasta da pobreza; mas esta agricultura não é a riqueza facil a se ofertar aos homens, é antes a unica e ardua missão que lhes resta como unico recurso na luta heroica pela subsistencia.

Lembrai-vos que, dos setecentos quilometros que, longitudinalmente, possue esta faixa de terra, tres quartas partes estão sujeitas aos ardores tremendos das secas, lembrai-vos que o territorio pernambucano, em toda a sua extensão de 99 mil quilometros quadrados, ostenta a cada passo as afoitezas das rochas, as arremetidas dos outeiros, ou os recessos dos vales profundos e
6 estreitos, a embargarem o passo das maquinas agricolas ou a ressecarem as sementes pelas inconstancias pluviometricas proprias do nordeste brasileiro.

E, nestes poucos tratos de terra aproveitaveis, ergue-se a civilização de 3 milhões e quinhentos mil habitantes retemperados no espírito pela unidade da raça e requeimados no corpo pela canícula inclemente do sol nortista.

É pois o Pernambuco essencialmente agrícola pelas contingencias das poucas dotações da natureza que lhe foi avara em outros motivos de prosperidade que espera dos seus filhos, fieis até hoje, devotamentos mais heroicos para o futuro.

O futuro de Pernambuco não ha de ser obra política como se entende hoje, mas ha de ser obra benemerita da tecnica agrícola.

A agronomia, eis a unica salvação do estado “leader” da civilização nordestina.

E em recíproca, da responsabilidade tremenda para nós, será em Pernambuco que a agronomia ha de mostrar toda a exuberancia de sua utilidade pela vitoria economica diante das asperezas do solo e do clima.

Meus senhores,
Não é de hoje que os homens de Estado, á frente dos destinos da minha terra, apelam para a nossa profissão em apelo decisivo como unico meio de garantia para a riqueza ou, pelo menos, para a estabilidade economica de um povo.

Entretanto, o equilíbrio financeiro o economico do mundo, que somente nos ultimos quinze anos, acelerando a sua queda, veio de derrocada, não deixava perceber o alcance do apelo e a classe agronomica por pouco numerosa e fragil bem pouco revelalva a sua atuação.

De uns dez anos porem a esta parte, força é dizer-se que Pernambuco vem olhando com carinho sempre crescente tudo o que podem fazer os seus profissionais, e os governos, com sempre maior confiança, vem lhes proporcionando os meios de se tornarem de fato uteis á terra que deles espéra um pouco mais do que relatórios bonitos ou sugestões fantasticas.

A benemerita e hoje extinta Escola de Agronomia de Socorro, a sua digna successora, a Escola Superior de Agricultura de São Bento, a Associação de Agronomos do Nordeste, criaram em Pernambuco um conceito novo do profissional agronomo, fazendo para ele voltarem-se as atenções das classes produtoras que hoje não mais admitem assistentes de Estações Experimentais a escreverem tolices bordadas de termos tecnicos ou de citações de autores de nomes dificeis de pronunciar.

E, se de um lado estas instituições particulares ou semiparticulares, criaram nova éra para a classe tecnica da agricultura, justiça é preciso que se faça, datam da atuação do dr. Samuel
Hardman á frente da Secretaria da Agricultura, ás primerias demonstrações oficiais de fé no profissional agrícola, demonstrações que trouxeram após si uma verdadeira transformação do conceito em que, até então era tido o moço que estudasse a mais util das carreiras para os Estados do Norte.

E se na republica velha a figura do dr. Samuel Hardman imprimiu nos meios agronomicos de Pernambuco o prestigio que de fato merecia, maior alegria sinto ainda em afirmar que a nova republica confirmou para Pernambuco a esperança da classe na justiça social pela ascenção á Secretaria da Agricultura da figura inconfundível do dr. Edgar Teixeira Leite, a quem cabem as primeiras medidas de significação economica depois das arrancadas sangrentas de 1930.

Mais tempo dirigindo a Secretaria da Agricultura, o dr. João Cleofas não ficou aquém nas demonstrações de justiça ao agronomo.

Assim é que o corpo técnico da Secretaria, sofrendo uma reforma radical pela ampliação dos seus recursos, recursos que a visão administrativa do dr. Carlos de Lima julgou oportuno retirar mesmo com sacrifícios dos outros programas da sua administração, ficava definitivamente integrado na alta administração do Estado.

Deste modo, no momento atual, a Secretaria da Agricultura de Pernambuco tem uma organização modesta no vulto, porem ativa e proporcional aos seus recursos, beneficiando as fontes de produção em todas as modalidades.

Em primeira linha, senhores, eu vos cito a organização do ensino agrícola no meu Estado. Esta concentra-se na atividade patriotica dos padres beneditinos, que fundaram e mantêm a Escola Superior de Agricultura São Bento, cuja vida hoje é prospera graças á intervenção direta do governo do Estado, que a considera oficial e para eles envia recursos das verbas da Secretaria da Agricultura.

A Escola de São Bento é realmente agricola. Embora, seguindo, pelas determinações atuais da reforma do ensino agronomico, o programa teorico da Escola Nacional de Agronomia, ela prima pelo aproveitamento de suas possibilidades de ensino pratico, em um ambiente agricola que resume a vida agricola do Estado.

A Escola de Agronomia de São Bento está localizada em um engenho fornecedor em meio de mil e duzentos hectares de terra, em que todas as lavouras se fazem e em que se espalha em maiores proporções, a folhagem alegre dos canaviais.

Para segurança da continuidade administrativa da Escola, o governo do dr. Carlos de Lima, longe de diminuir o carater particular da Escola, assegurou ao Estado os direitos de fiscalização, mas levou para a discreção dos benemeritos beneditinos a autonomia necessaria ao progresso da instituição, firmado nas garantias de perpetuidade que oferece uma das unidades de uma ordem religiosa com quinze seculos de vida fecunda e ininterrupta.

Da Escola de São Bento saíram e vem saindo os profissionais agronomos de Pernambuco que, aliando o conhecimento do ambiente
agricola aos conhecimentos tecnicos, se vão tornando benfeitores, parcelas ativas na grande obra de soerguimento economico do Leão do Norte.

Ao lado do ensino agricola superior, que ao meu ver, é indispensavel base para todo e qualquer empreendimento duradouro que vise soerguer uma dada região pela racionalização de sua lavoura, o Estado mantem atualmente dois patronatos agricolas e diversas escolas rurais primarias, em que sobressai a de Pacas, situada em uma das fazendas citricolas da Secretaria da Agricultura.

E, nestes dias, inaugurará ainda o governo de Pernambuco, na proximidade do prospero município de Vitoria, o Instituto Cinco de Julho, que vai ser a maior colonia de regeneração dos deliquentes, pelo contacto sadio e reformador com os quefazeres do campo.

Deste modo cuidada a instrução agricola que hoje se ministra na medida do possivel em todas as escolas do Estado, a começar pela Escola Doméstica em que um agronomo professa a cadeira de jardinagem e horticultura, instrução sem a qual toda a tentativa de racionalização da lavoura será infrutifera pela falta de tecnicos locais e pela carencia de quem lhes execute as ordens, o Estado prevê a assistência direta e imediata ás necessidades da lavoura pela Diretoria da Agricultura, a cuja frente se encontra o dr. João Paulo Barbosa Lima, como profissional operoso e altamente simpatizado pelos profissionais de Pernambuco, bem como pela Diretoria de Industria Animal, chefiada pelo dr. Renato de Farias. A Diretoria de Agricultura tem a sua atividade ministrada através de tres chefias de serviço: a primeira a de fruticultura, a segunda a de cana de açucar e a terceira a do fomento agricola.

O Serviço de Pomicultura possue quatro fazendas modelos, uma em Pacas, outra em Cedrinho, uma terceira em Dois Irmãos e por fim uma em Garanhuns com o nome de Fazenda Santa Rosa.

Estas quatro fazendas, ao mesmo tempo que servem de demonstração aos interessados, permite a obtenção de enxertos e mudas que atendem aos inumeros reclamos da população agricola.

Foi deste modo que somente o ano passado foram vendidos pelo preço de cômodo de dois mil reis por unidade 30 mil enxertos de citrus, foram distribuidos vinte milheiros de mudas de essências florestais, quatrocentas mil mudas de abacaxi sem contar numeros menos avantajados de plantas ornamentais.

Podemos ainda citar o nucleo de enxertia na Ilha de Itamaracá, onde viceja a velha mangueira de que provêm os afamados frutos da ilha.

Como complemento da atividade centralizadora destes nucleos, possue ainda o Serviço de Fruticultura um corpo de Inspetores, suficientemente munidos de materiald e trabalho com pulverizadores, inseticidas, material de enxertia e de póda, etc. com a missão de guias dos pomares que se fundam e de orientadores dos pomares já fundados.

O Serviço de Cana
Seria realmente inexplicavel que Pernambuco não tivesse o amparo da cana como uma de suas preocupações, se a lavoura da cana concorre para as rendas publicas com mais de dois terços de sua arrecadação, cobrindo uma area não inferior a cento e cincoenta mil hectares.

Quando em 1927, os canaviais do vale do Tapacurá se encontravam completamente infestados do mal do mosaico e em outras zonas açucareiras se notavam fócos ameaçadores do mais completo espalhamento pelo Estado com grave dano para a industria, criou a Secretaria o primeiro serviço de amparo á lavoura canavieira.

Este serviço que se constituiu pela comissão de inspetores do Mosaico, veio exercendo a sua atividade até o ano de 1932, sendo ampliado nas suas finalidades pela colheita de dados estatisticos agricolas, já no governo revolucionario.

Parecendo á primeira vista um Serviço, naquele tempo, de pouca importancia, dada a pequena aparelhagem de que dispunha, os resultados entretanto da atuação dos tecnicos em continuo contacto com os agricultores, forçando-os obrigando-os mesmo a cuidadosa escolha do material do plantio, forma os mais surpreendentes para os leigos e mais confortáveis para os profissionais que tinham fé nas medidas que aconselhavam.

O mosaico da cana em Pernambuco mesmo sem a introdução de variedades de cana importada, medida radical que as circunstancias não permitiam fazer de pronto, ficou reduzido a nenhuma valia economica, podendo-se citar o fato que em zonas açucareiras em que, 4 anos atrás, dificilmente se encontrava uma touceira de cana sadia, já em 1932 mais dificilmente ainda se encontrava um exemplar de cana com mosaico.

No ano de 1932, estando a Estação Experimental de Cana do Ministério sob a administração do Estado, ampliou-se a finalidade do Serviço do Mosaico, transformando-o em Serviço de Cooperação.

Serviço este que, apoiado na Estação, tornava-se a extensão de sua atividade ao meio agricola, pelo contacto dos tecnicos, em campos varios de demonstração, com os agricultores das tres zonas açucareiras.

Em 1934, tendo a Estação passado á administração federal que a extinguiu para reiniciar os trabalhos de instalação da magnífica Estação Experimental que vai ser a de Curado, confiou-me em Julho o Estado a organização do Serviço Estadual da Cana de Açucar, que hoje com prazer dirijo.

O Serviço da Cana, Senhores, embora o mais modesto nas suas dotações orçamentarias – um terço da do Serviço de Fruticultura e um decimo das quotas do Serviço estadual do Fomento no ano de 1934, - ouso afirmar-vos, vem mostrando quanto pode a tenacidade dos moços que comigo trabalham pelo soerguimento da lavoura maxima do Estado.

Logo de inicio firmei a necessidade de um estabelecimento central tecnico, e, dadas as dificuldades de numerario que não permitiam exigir do Estado maiores dispendios, sob o regime de cooperação, fundou-se a sub-estação experimental de cana do Estado, por ato da Interventoria de 22 de outubro de 1934.

A organização desta sub-estação, penso, é um caso inedito nos meios tecnicos do Brasil. A Estação já existia, funcionava, exercia sua benefica influencia no meio agricola, mas não possuia ainda denominação oficial, não fôra ainda inaugurada, não produzira ainda ruídos pelos jornais.

É que a sub-estação Experimental de Cana de São Bento nasceu de trabalhos tecnicos efetuados por mim na qualidade de professor de Agricultura Especial na Escola de São Bento.

Com a irrupção do mosaico no vale do Tapacurá, justamente no vale em que se acha a Escola de São Bento, como professor da cadeira supra, compreendi desde logo o imenso alcance de estudos sobre a cana, ameaçada em sua prosperidade.

Assim sendo, visando o aperfeiçoamento da minha tecnica, sabendo que o mosaico se combateria de modo facil pela mudança do material do plantio, pelo emprego de variedades novas e de mais vigôr, iniciei desde logo os trabalhos de produção de novos tipos pela reprodução sexuada da cana, conseguindo os primeiros seedlings de cana em 1928, provavelmente uma das primeiras reproduções sexuadas de cana tecnicamente realizadas no Brasil.

Estes cruzamentos repetidos em 1929, deram-me material de escolha suficiente para os meus trabalhos e recursos em 1930, ano em que não obtive seedlings, porque precisei enveredar pelas combinações com canas javanêsas de que conseguira, graças aos bons oficios da Estação Experimental de Cana de Campos, os primeiros exemplares conseguindo em 32 e 33, 15 mil seedlings com “sangue” javanês.

Concomitantemente foram feitos nos campos da Escola de São Bento trabalhos varios de experimentação em cana, qual sejam a comparação de variedades da região com variedades javanêsas, experiências e adubação química e orgânica em solos que representavam por suas caracteristicas apreciaveis semelhanças aos dominantes no vale do Tapacurá, experimentos de processos de plantio, enfim, uma série de investigações que se justificavam na ansia que me animava de ser util no que ainda reputo ser a base da riqueza pernambucana.

Ampliando-se mais e mais os trabalhos na Escola de São Bento em torno da cana de açucar, o Estado lhes veio em auxilio, dotandoos com verba especial para o custeio dos labores agricolas, nomeando ainda o dr. R. Portela, como assistente Agrônomo, moço cujo devotamento e interesse pelos assuntos referentes á cana foram os unicos motivos que mo fizeram apontar ao dr. Interventor para nomeação, bem como nomeando ainda um auxiliar de experiencia na pessôa de um agricultor experimentado e inteligente.

Por sua vez a Escola punha á disposição do governo não somente os seus laboratórios mas também, como assistentes de fitopatologia, entomologia e de quimica,  o professor D. Bento Pickel cujos trabalhos na sua especialidade já transpuseram as fronteiras do país, e o professor D. Pedro Bandeira cujas pesquisas quimicas são grandemente estimadas em Pernambuco.

E, desta mutua cooperação da Escola e do Estado, deu-se corpo, deu-se forma aos trabalhos do modesto campo de cana que eu criara, erigindo-o em Sub-Estação Experimental de Cana de São Bento.

Essa Sub-Estação que, por seu nome guarda a sua dependencia tecnica para com a futura Estação Experimental de Curado, é hoje a séde de todos os demais trabalhos do Serviço Estadual de Cana.

Este Serviço que consta atualmente de trinta campos de cooperação nos diversos engenhos ou sinas do Estado, tem nesta organização cooperadora o meio de melhor estabelecer o convívio frutífero do agronomo com o meio canavieiro e sobretudo imprime maior eficiencia ás conclusões que se podem tirar dos trabalhos experimentais da Sub-Estação, trabalhos que não são feitos para ela, mas para os agricultores que deles têm direito.

Em cooperação são pois feitos trabalhos experimentais de adubação quimica, quimico organica, organica e verde, demonstrações de processos varios de irrigação com aparelhagem elevadora e distribuidora de agua fornecidas pelo Estado, competição de variedades, meio unico para se ter certeza do comportamento das diversas variedades de cana a se introduzirem nas diversas regiões de um Estado completamente desuniforme nas suas condições agricolas.

Assim firmada a parte extensiva do Serviço de Cana, a Cooperação com os Agricultores, na Sub-Estação Experimental de São Bento, foi possivel este ano que findou, fazer-se a distribuição de 204 toneladas de canas javanêsas dos numeros 2878 e 2714, sem contar pequenas distribuições de outras variedades como POJ 161, 2727, 228 CB 3100, BH 10 (12) SC 12 (4) etc., beneficiando a 98 agricultores.

Ao mesmo tempo foram aplicados no meio agricola canavieiro de Pernambuco pelo Serviço, doze toneladas de adubos quimicos, tres toneladas de sementes de leguminosa, mucuna crotalarias e cowpeas, cuidando-se ainda de fundar nas tres zonas de cana tres nucleos de semente de canas javanêsas, destinados a, no ano de 1935, fornecer mais 100 toneladas ás quinhentas toneladas que se poderão colher para distribuição nos Campos da Sub-Estação Experimental de São Bento, resolvendo de um modo economico e eficiente o problema de transporte do material de plantio nas zonas mais distantes.

E se estas realizações palpaveis justificam e enobrecem a atividade dos moços que comigo sonham o engrandecimento da lavoura canavieira de Pernambuco, não devemos deixar de citar o
alcance das inumeras visitas dos tecnicos - foram registradas mais de 400 nos ultimos seis mezes – visitas que pondo os agronomos em presença do agricultor, facultam-lhes o conhecimento de suas necessidades e suas aspirações em demanda da tecnica redentora.

Enfim, senhores, resta-me ainda fazer-vos a exposição do que a agronomia vem fazendo em Pernambuco através do Serviço Estadual do Fomento. Este Serviço que se ocupa de todas as culturas não inclusas nos serviços supranomeados, dedica-se entretanto com maior empenho ao fomento á lavoura algodoeira.

Dotado de verbas especiais que a administração do dr. Carlos de Lima julgou oportuno empregar em prol do ouro branco, em que sente motivos seguros de grandeza para Pernambuco, o Serviço de Fomento, poude realizar no ano passado a formidavel distribuição de dois milhões de quilos de semente, numero bem vizinho do total necessario em material de plantio para toda a lavoura algodoeira de Pernambuco, conforme os calculos da Inspetoria Federal de Plantas Texteis, pela palavra abalizada do dr. Alfeu Domingues, que o estima em dois milhões e meio.

E a mesmo tempo que assim se levavam sementes escolhidas ao agricultor sertanejo, dispensava-se-lhe assistencia tecnica pela presença dos agronomos aparelhados das mais modernas maquinas agricolas, a romperem a terra sertaneja nos campos de cooperação numerosos e vastos.

Ainda a Diretoria mantem pequenos Serviços que muito beneficiam o Estado. Assim é, por exemplo, que, aparelhada com cinco camaras de expurgo convenientemente instaladas em diversas zonas algodoeiras e cerealiferas bem como de aparelhagem numerosa de pulverizadores, bem como de uma organização extintora de sauva, não deixa a Diretoria de Agricultura de Pernambuco de cuidar do lado sanitario das lavouras, enquanto ainda faz uma tentativa de irrigações em grande escala na longinqua ilha de Belem para contentamento e entusiasmo dos sertanejos. Vistos, senhores, em largos traços, o quanto a classe agronomica vem realizando em meu Estado, através dos serviços publicos ou semipublicos.

É preciso porem que não esqueçam o que diversos tecnicos de valia, vem efetuando em empresas particulares como mostras de patriotismo e operosidade.

As lavouras de Pernambuco, felizmente já enveredam pelas normas nacionais da tecnica, tendo á frente homens moços e inteligentes que neste sentido dispendem o melhor dos seus esforços.

As usinas Cucaú, Central Barreiros, Santa Terezinha, São João da Varzea, Santo Inacio, Olho d’Agua, Mussurepe, Caxanga e Tiuma cuja produção global é quase igual a produção total das usinas paulistas, tem as suas culturas orientadas  ecnicamente por agrônomos devotados e uma usina com a Catende a maior do Estado, sendo dirigida pela inteligência moça de um dos melhores quimicos industriais de Pernambuco, o dr. Passos, explorando atualmente
cerca e quarenta propriedades agricolas, tem estes campos, que desafiam as conquistas da tecnica, dirigidos por um rapaz inteligente que em contacto com os agrônomos do Estado, vai imprimindo uma feição modernizadora a todas as atividades culturais da cana.

E se deixarmos senhores, a principal lavoura do Estado, encontraremos os empreendimentos tecnicos da companhia agricola do São Francisco cujo programa algodoeiro e pastoril já é uma conquista, encontraremos as atuações das firmas compradoras de algodão que mantêm campos de demonstração da lavoura do ouro branco, encontraremos ainda a atividade moça de um jovem como o dr. Moacir Brito a efetuar na Pesqueira semisertaneja os milagres da lavoura seca em beneficio da lavoura do tomateiro, da goiaba e dos mais diferentes produtos agricolas.

É na Industria Animal, que Pernambuco possue uma diretoria á parte, esta vem vindo em amparo aos criadores de minha terra, por intermedio da fazenda modelo de criação do Estado, afóra dos campos de padriamento, afóra ainda a inestimavel realização que é o entreposto do leite que se está fundando em Recife, graças á clarividencia e sabia orientação do dr. Renato Farias que é sem favor o estimado e competente orientador da industria pastoril de Pernambuco.

Mas, meus senhores, não vos teria dado ainda uma ideia exata do que é o meio tecnico agronômico de Pernambuco, se não vos puzesse a par das realizações do Ministerio da Agricultura.

É que tambem o Ministerio, através da Inspetoria de Plantas Texteis, entregue á direção do dr. João Augusto Falcão, através dosdevotados, incansaveis e patrioticos trabalhos da Secção Tecnica de Fruticultura, a cuja frente o dr. Octavio Gomes se tornou credor da organização tecnica da exportação do abacaxi pernambucano, através ainda do Serviço de Vigilancia Sanitaria Vegetal, da bela esperança da Estação Experimental do Curado, dos trabalhos da Fazenda Modelo de Tejipió, da hoje otimamente aparelhada secção de defesa animal a cuja frente o dr. Vernet vem proporcionando benefícios á industria pastoril, através enfim da Inspetoria Agricola, o Ministerio, repito, já não é mais indiferente aos destinos agricolas de Pernambuco.

E como resultado deste ambiente técnico que se criou aos poucos em Pernambuco, surge a esperança, que esposo ardentemente, de que Pernambuco não perderá os justos títulos de pioneiro da civilização no Norte Brasileiro.

E tanto mais senhores eu confio no futuro da minha terra, quanto sinto e vos dou fé que Pernambuco deixa transparecer a ansia dos particulares em adotarem as normas da agronomia em seus empreendimentos, enveredando pelos ensinamentos que lhes ofereçam destituidos das marcas de um teorismo charlatão, antes vestidos da simplicidade verdadeira dos conhecimentos de fato.

O agricultor pernambucano não é hoje mais um isolado da imprensa tecnica nem uma resistencia indomavel ás inovações agronomicas.

O que é hoje o agricultor pernambucano é um batalhador incansavel contra todas as dificuldades do meio hostil nas suas condições climáticas e de solo, é mesmo um vencedor destas dificuldades pela perseverança na luta demorada e aspérrima.

O que ele traduz em suas manifestações coletivas como nas objeções particulares que fazem aos conselhos tecnicos que lhes vêm ao encontro, é simplesmente a sabia lição da prudencia, que não aceita de mão beijada conselhos formulados por teoricos longinquos ou por literatos desconhecedores do meio agricola onde pretendem legislar ou para onde doutrinam.

Os fatos que os desentendidos nas coisas do meu Estado, e que disto não se capacitam, muitas vezes apontam como prova de um ambiente avesso ás inovações da tecnica, encarados ao prisma do conhecimento integral da profissão que somente é possível com a convivencia demorada no meio agricola sobre que se faz a apreciação, não raro denotam justamente o inverso, ressaltando o merito de um povo laborioso e progressista.

Entre senhores as documentações que os pessimistas aduzem como prova de que em Pernambuco o atraso cultural domina, cita-se o fato por exemplo, da industria açucareira lutar com as dificuldades de uma lavoura deficitaria e improdutiva.

Aventam-se então os exemplos entusiasmadores do povo bandeirante que soergueu em poucos anos a sua lavoura da cana, pela importação de canas javanêsas, atingindo a produção formidavel de 1900 mil sacos de açucar na ultima safra.

Enquanto isto, em Pernambuco se estaciona, e, dizem mais, aumentam-se as áreas de cultivo. Ora, senhores, fato semelhante ao que se verificou em São Paulo poderíamos aduzir em Pernambuco quando da gomose da cana caiana. No momento mais terrivel da industria açucareira pernambucana, a iniciativa de um particular, de um banguezeiro inteligente, conseguiu salvar a lavoura não somente com a importação de melhores variedades de cana, mas com a produção das variedades incontestavelmente formidáveis para o tempo, variedades que justificaram tecnicos estrangeiros a virem comprar a preço elevado mudas para as suas coleções e para os seus subseqüentes trabalhos de genetica.

Deixando porem estes fastos gloriosos da cultura da cana de Pernambuco, analisemos somente um pouco mais  profundamente os motivos porque não é possivel realizar-se em poucos anos uma transformação radical na tecnica de plantio da minha terra.

Quando em São Paulo o numero de usinas é restrito a cerca de 26, incluindo nestas, mesmo, usinas que em 1933, dados oficiais, esmagaram apenas 1800, 1815, 4320 e até simplesmente 280 toneladas, justificando o grosso da produção em pouco mais de uma dúzia de usinas de safras relativamente grandes, em Pernambuco a industria da cana se reparte por mais de sessenta usinas grandes, deixadas as menores á margem para uma produção global de mais de tres milhões de sacos.

Teríamos ahi já um motivo fortissimo para a transformação da tecnica não poder ser repentina. Entretanto ainda ha ponderações mais serias.

Quando em São Paulo o numero de usinas é pequeno e estas usinas em mão de brasileiros e também de firmas  strangeiras poderosas, exploram diretamente as suas terras, reduzindo-se portanto a administração agricola a poucas cabeças, beneficiada ainda das vantagens agrologicas e topograficas incontestes do solo paulista, em Pernambuco com o regime de fornecedores, disseminando-se a exploração da cana não mais por 60 administrações, mas por centenas e por milhares de administradores com o grau de cultura o mais diverso, a braços com deficiencias de capital, claro que se deve contar como fator primacial para a modernização vagarosa da lavoura e imensa luta de conseguir-se unanimidade de vistas em meio de tão numerosas cabeças pensantes.

E o resultado é pois um vagar justificavel e não comprometedor.

O sistema “fornecedores”, portanto, trazendo de seus lados as vantagens sociais da divisão da riqueza em muitas mãos traz consigo a desvantagem forçosamente reconhecivel das dificuldades de uma orientação unica, facilmente moldável ás circunstancias.

Este empecilhos oferecidos pelos fornecedores não denotam absolutamente natureza hostil ao progresso, lembra apenas o fato psicologicamente explicavel de que é dificil conseguir-se unanimidade em classes numerosas, repito, unanimidade tanto mais dificil quanto ainda se tem a considerar que ninguem pode tirar ao fornecedor o direito de se não mostrar confiante em resultados financeiros vantajosos de praticas simultaneamente vantajosas para êles e para quem as propõe.

É o caso por exemplo da mudança do material do plantio.

Entretanto, mesmo com estas dificuldades que nem sempre são compreendidas por quem doutrina de longe pelas colunas da imprensa ou dos fôfos assentos dos escritorios luxuosos de sociólogos que esquecem que o homem tem o seu livre arbítrio a fazer falhar as previsões sociológicas mais verosimilhantes, o que devo afirmar em homenagem á verdade, é que o agricultor pernambucano, máxime este agricultor da cana que assegurou ao Estado a sua independencia e, tempos idos, ao Brasil a sua integridade, não é aferrado á rotina, é antes um homem de lutas capaz de se transformar em pouco tempo quando as razões aduzidas para esta transformação tem raízes mais profundas do que a espessura das folhas dos livros.

É o que posso, meus caros colegas vos documentar com a aceitação entusiasta dos conselhos que os meus agronomos do Serviço de Cana espalham pela zona açucareira de Pernambuco.

É o que posso deduzir da ansia de progresso que me não escondem as inumeras relações que possuo em Pernambuco não no
meio divertido das cidades mas no coração da população laboriosa dos agricultores e industriais da cana.

Milagres de transformação tecnica são sem duvida as realizações das usinas Ctende, Santa Terezinha, Tiuma, Central Barreiros, Olho d’Agua, São João, Pumati, União e Indústria e outras.

E se não fossem os muitos minutos que vos roubei de bondosa atenção eu vos mostraria que o conhecimento destas cousas somente a visão pessoal é que traduz, lembrando com dados numéricos a relatividade dos dados médios que se espalham aos quatro ventos a mostrarem para gozo dos pessimistas o fracasso futuro de um Estado que sempre saiu vencedor em pelejas maiores.

Eu vos mostraria na certeza das equações o que significam medias comparáveis ás que fixam, com exemplo clássico, numa população de 1000 pessoas uma riqueza media de mais de mil contos para 999 famintos e um só milionário.

Mas, os dados que aduzi já foram bastante eloquentes a meu ver para fixar o principal desideratum de minha palestra: mostrar o que significa para Pernambuco a profissão de agrônomo, o que significais vós, presados colegas, que nos outros recantos desta grande pátria, no entusiasmo de vossa juventude, cooperais para a grandeza do pais mais feliz do mundo.

Rio, 22 de fevereiro de 1935.

APOLÔNIO SALLES
Diretor do Serviço Estadual da Cana de Açúcar de Pernambuco

 

DISCURSO DE POSSE COMO SECRETÁRIO DE AGRICULTURA, INDÚSTRIA E COMÉRCIO DO ESTADO DE PERNAMBUCO
Discurso de Posse proferido pelo Engenheiro Agrônomo Apolônio Jorge de Farias Salles, como Secretario de Agricultura, Industria e Comercio de Pernambuco, Recife, 1937. Publicado no Boletim da Secretaria de Agricultura, Industria e Comercio. v. II, n. 4, dez., 1937. p. 480-81.

Com a posse do Exmo. Sr. Dr. Agamenon Magalhães e a formação definitiva do secretariado, foi chamado para gerir a Secretaria de Agricultura, o acatado técnico pernambucano dr. Apolônio Salles.

Nenhuma escolha se processou no atual momento com mais acertada felicidade. Si ha, alguem no Estado que possa ficar á frente da nossa pasta da Agricultura, com inteira desenvoltura e segurança é o seu atual detentor.

Conhecendo perfeitamente os nossos problemas agrícolas, dando ao problema da cana de açúcar o seu justo valor e atribuindo ás outras lavouras o papel que merecem, no nosso cenario agronomico, o sr. Apolônio Salles sabe firmemente o que quer e que justamente o que é preciso.

Não ha lisonja no que se afirma aqui; isto é tanto mais certo quanto, antes mesmo de ser S.S. procurado pelo Estado para gerir a sua pasta agricola, já particulares, com essa visão que só o interesse proprio sabe dar, já tinham ido encontrar no sr. Apolônio Salles, o mentor seguro do plano de renovação agricola dos canaviais.

Prometendo só o que pode dar e dando muito mais sempre do que promete, o penhor da segurança do nosso atual secretario de agricultura se pode ter no seu discurso de posse que abaixo, vai transcrito:

“No momento em que deixo os canaviais da Usina Catende, onde realizava uma obra de que, apesar de reconhecer a modestia do seu autor, não deixo de reconhecer a magnitude de sua eficiencia,para vir assumir, aqui a pasta da agricultura do Estado de Pernambuco, eu me sinto grandemente emocionado sob o peso da responsabilidade que sei enorme talvez maior do que os meus ombros podem suportar.

Digo que essa responsabilidade é enorme porque, agora em que se pensa e se começa a proclamar um soerguimento economico do Estado, somente a solução agricola aparece como viavel prometedora. Porque, srs., Pernambuco, é um Estado que não possue riquezas minerais e que possu somente uma terra para ser trabalhada, arduamente trabalhada, e um clima que ás vezes nem
sempre é propicio ás culturas indicadas pelas exigencias do comercio ou pelas conveniencias dos lucros.

Pernambuco não possue outras riquezas que as agricolas e não possue outras vantagens que não o ardor de seus filhos que querem trabalhar a terra e, ás vezes, até modificar o clima.

O empreendimento gigantesco que venho fazendo nas usinas tem-se que fazer ainda maior no Estado inteiro: fazer a terra produzir apesar das irregularidades climaticas e asperezas do solo.

É bem grande, portanto, a minha responsabilidade. Confortame, entretanto, quando me decidi a assumi-la a certeza de que á frente do Governo está, no momento, um homem que para a realização do seu programa não consultou interesses políticos, mas consultou interesses do Estado.

Conforta-me, ainda, de poder proseguir no primeiro arranco de organização agricola que o espirito clarividente do titular, que nos deixa, dr. Antonio Novais, tão bem acertado dirigiu para frente, para frente.

Eu não sou politico, não fui politico, sou apenas um tecnico e me regosijo não pela deferencia á minha pessoa, mas pela deferencia que se faz á classe, confiando-lhe num dos seus humildes representantes, para a tarefa ingente de colaborador imediato do grande organizador da economia pernambucana, o exmo. sr. dr. Agamenon Magalhães”.

Recife, 10 de novembro de 1937.

Apolônio Salles
Secretario de Agricultura, Industria e Comercio de Pernambuo

 
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