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MEMORIA AGRONOMICA PERNAMBUCANA PDF Imprimir E-mail

DISCURSO DA INAUGURAÇÃO DAS NOVAS INSTALAÇÕES DA ESCOLA SUPERIOR  DE AGRICULTURA DE PERNAMBUCO

Apolônio Jorge de Farias Salles

O govêrno de Pernambuco, sr. Presidente, está sumamente honrado com a presença de v. excia. à inauguração das novas instalações da Escola Superior de Agricultura de Pernambuco. Mais do que isto: sente intensa alegria por ser v. excia. quem vai dar como que a palavra de ordem para o prosseguimento desta obra grandiosa de ensino técnico no Nordeste brasileiro.

A preocupação máxima do govêrno tem sido a renovação econômica do Estado, o aumento de sua capacidade de criar valores para a sua economia e para a economia do país.

Esta orientação não é mais do que a reciproca das diretrizes que v. excia. vem traçando para a grande marcha de tôda a nação, em demanda de um lugar respeitável na distribuição das riquezas do mundo.

Bem sabemos que o sonho de v. excia. é, na moldura de um país economicamente estável, lançar o quadro já esboçado de uma nação política, social e moralmente soerguida. E, porque sabemos que este é o pensamento de v. excia., revelado na atividade desuzada do Ministério da Agricultura, da Comissão de Defêza da Economia Nacional, bem como os demais departamentos federais de amparo à produção, alegra-nos indicar este estabelecimento formador de técnicos como uma contribuição nordestina na escultura dos elementos indispensáveis para o seguimento dos rumos traçados por v.excia.

A TÉCNICA

Hoje, a técnica é a palavra da ordem. Pela estrutura política do Estado Novo, cresceram as responsabilidades dos detentores do poder, olhando todos, grandes e pequenos, para os dirigentes, à procura das soluções eficazes dos grandes e intrincados problemas da produção. E os problemas se multiplicam com a extensão territorial dos países sôbre que incidem.

Hoje, não se mede mais a grandeza de um povo pelo àmbito de suas fronteiras, nem mesmo se conta pela cifra dos censos demográficos, mas respeitam-se as nações de acôrdo com a capacidade realizadora dos seus filhos.

Se fizessemos um paralelo entre a capacidade de produção do Brasil e a de outros paises menores e talvez tão jovens quanto o nosso, nem sei si teriamos  motivos de grandes orgulho e de intensa satisfação. Por isto os administradores, convencidos de suas responsabilidades, bem compreendem sôbre que solo têm que lançar a semente da estabilidade política, não sendo difícil provar que o bem estar social exige um mínimo muito avançado de prosperidade econômica.

É por isso que nos postamos em posição de sentido, às ordens de v. excia., trazendo à realização da obra gigantesca do saneamento da economia do Brasil, o ingente esforço do govêrno de Pernambuco pela recuperação econômica do Estado, em auxílio à renovação econômica do país.

V.excia. poderá vêr que o pensamento nosso é, sem dúvida, o suprimento da quantidade pela qualidade dos homens que sairão formados nesta instituição de ensino superior agrícola. Aqui, deixamos de parte tôda a preocupação de luxo e tôdas as solicitações da vaidade. Aqui só uma coisa nos preocupou: solucionar os enigmas atuais da técnica agricola em Pernambuco, não criando problemas para resolver, mas aceitando os inúmeros desafios que reclamam a perícia do profissional.

Não nos tenta a ciência pela ciência, nem mesmo a ciência pelo fulgor transitório das citações honrosas nos meios científicos do mundo. Tenta-nos apenas a massa enorme de dificuldades, que a lavoura nordestina tem a encarar, e que justifica todo o empenho das administrações em proverem a grande vinha com os operários que lhe são indispensáveis.

ORGANIZAÇÃO DA ESCOLA

Eis a razão, sr. Presidente, por que esta Escola de Agronomia não possue edifícios magestosos, mas possue amplas edificações; não possue campos floridos e ornamentados com especimes raros de flores exóticas; mas conta em seu acervo didático 480 hectares de terrenos e de lavoura, de florestas e de lagos, de granjas e de campos de pastagem, em que o agrônomo, exercendo a sua profissão, nunca esquece a realidade nordestina de um rincão empobrecido que precisa trabalho inteligente e, sobretudo, carinhoso para soerguer-se de sua ruina.

Os gabinetes que compõem o acervo científico e didático da Escola juntam-se aos laboratórios bem montados do Instituto de Pesquisas Agronômicas, anexo à mesma, casando numa harmonia bemfazeja a técnica pedagógica com a técnica experimental.

Os moços estudantes que se iniciam nos gabinetes de física e química, de botânica e geologia, de genética e mecânica, de zootecnia e topografia e de desenho, nas leis básicas destas ciências, têm logo adiante, no Instituto de Pesquisas, a aplicação dos axiomas custosamente aprendidos, nos trabalhos produtivos dos laboratórios de solos, de veterinária, de botânica aplicada, de matérias primas, de fitopatologia, de entomologia e genética.

Nestas oficinas é que o agrônomo se acredita servindo de bússola, a todo labor técnico da Escola e da Secretaria, como pedestal de tôda a edificação do fomento rural, ora se desenvolvendo a largos passos em Pernambuco.

Em tôrno da Escola surge ainda uma granja modêlo de criação. Aí se explora desde a pecuária leiteira, a te a avicultura, da apicultura a cunicultura e colombicultura racionalizadas.

Neste ambiente vivo de trabalho contam-se mais um jardim zôo-botânico, uma secção especializada de psicultura e uma Estação de Pomologia, onde os moços de minha terra podem abrigar-se sob o manto do ensino agronômico da Escola de Agricultura de Pernambuco.

NOVOS PLANOS

Isto, sr. Presidente, são fatos já realizados; temos, porém, muito a fazer, embora o programa de levar esta escola às alturas de uma universidade técnica já esteja iniciado com a transferência para aqui do curso de química industrial, a vigorar em janeiro.

Ainda veremos surgir ao derredor dessa Escola, um Instituto de Sericultura, garantidor do fornecimento de ovulos indispensáveis às sirgarias, a serem espalhadas pelo fomento municipal em todos o território pernambucano. Aquí, bem perto, surgirá, espero, em breve, uma usina modêlo e uma destilaria moderna, em que tôda a técnica industrial açucareira possa acompanhar, passo a passo, a técnica agrícola aprendida nos campos da Escola.

Sonhamos para Pernambuco um estabelecimento modelar, em que todo o brasileiro desejoso de se especializar em cana de açúcar tenha,  num ambiente de ensino, a demonstração do que na indústria e na grande lavoura do Estado se há de fazer sob os ditames de uma ciência aplicada, do modo mais perfeito e mais rendoso.

Tudo será possível e regiamente compensado.

POVO LABORIOSO

Podemos afiançar a v. excia. que o agricultor pernambucano é laborioso e progressista. Pra provar esta assertiva que se acompanhe a película maravilhosa da transformação agrícola deste Estado. Tivéssemos o dom de elastecer o tempo e v.excia. poderia vêr como pontilham os cumes dos morros verdes dos nossos canaviais, os reservatórios de água e as listas brancas dos canaletes de irrigação, orlando a paisagem  num aceno de ressurreição e de vida. As encostas se erguem num estendal de touceuras viçosas e, nos cumes dos montes, em derredor dos açudes, nos córregos profundos e distantes, em tôda a zona da mata, poderia v. excia. surpreender o trabalho ingente de estabilização da cana, a assegurar outras atividades como o plantio de leguminosas, milho, mandioca e outras plantas alimentares. Veria, aos milhares, as sementeiras do reflorestamento, veria as pastagens artificiais, surgindo num esforço zootécnico de encantar.

Tudo, sr. Presidente, porque não faltou a palavra dos técnicos, numa administração pública conciente e devotada.

Veria v. excia., no âmago do sertão, o esforço titânico, por nobilitar-se uma planta nativa – o caroá – trazendo-a dos epinhos para os salões, passando das caatingas hostis para as engrenagens engenhosas dos teares, pela confiança nas promessas do técnico.

Veria, no pórtico sertanejo, o verde escuro das maiores plantações de tomate do mundo, sob o contrôle escrupuloso, vigilante e certo, de um agrônomo pernambucano.

Quando um povo assim merece, por estas provas inequívocas de abraçamento das iniciativas oficiais que lhe traçaram os rumos de uma remodelação total de suas atividades econômicas, tudo o que se faça, para atender-lhes nas suas necessidades de especialistas e de agrônomos é pouco. Tudo o que se faça neste sentido é modesta recompensaq, com que o govêrno agalardôa a mais sadia compreensão produtiva do amor à Pátria.

Sr. Presidente, nesta paisagem soberbamente tropical, neste cenário em que a juventude se enrigesse no espírito e no corpo, na moldura, destes coqueiros e destas mangueiras seculares, queira v. excia. mandar erguer-se o pavilhão nacional, dando a sua palavra de ordem para que se considere inaugurada a Escola de Agronomia.

Plante v. excia. na fachada deste edifício a bandeira da pátria, como um símbolo a indicar o intento desta instituição de ensino superior: formar renovadores da economia de Pernambuco, pensando no Brasil.

Recife, 19 de outubro de 1940.

Apolônio Salles
Secretario de Agricultura, Industria e Comercio de Pernambuco

 
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